Quebrar um país é mais fácil que um banco
França e Alemanha fecharam nesta quinta-feira um acordo para salvar a Grécia do colapso. Pode parecer presunção, mas não é exatamente algo que me surpreenda. Não que eu tenha informações privilegiadas. Apenas uso o bom senso. Seguinte: deixar a Grécia quebrar poderia levar à quebra também os bancos alemães (e franceses).
Dos cerca de 300 bilhões de euros em títulos gregos, 59 bilhões estão de posse de bancos franceses e 30 bilhões com os alemães, quantia que chega a 43 bilhões se se acrescentarem outros instrumentos financeiros.
Como a Alemanha é o país mais forte da Europa, depende dela qualquer decisão econômica (política, nem tanto, porque as coisas são mais complicadas, mas essa é outra conversa). Se o governo alemão deixasse a Grécia quebrar, recusando-se a intervir, como vinha fazendo nos dias anteriores, daria um tiro no próprio pé, título aliás da coluna de Xavier Vidal-Foch para “El País” de quinta-feira.
A decisão franco-alemã acaba sendo apenas mais uma demonstração de que, apesar de toda a crise que provocaram, os corsários do sistema financeira continuam ditando as regras do jogo. Vidal-Foch, aliás, fez uma interessante comparação entre as necessidades de financiamento da Grécia (22 bilhões de euros, daqui até o fim de maio) e a quantia que os governos de diferentes áreas despejaram para salvar o sistema financeiro em quebra. Foram, só no caso da Alemanha, algo em torno de 500 bilhões, em diferentes maneiras de alívio; na França, foram 360 bilhões.
A decisão de socorrer os bancos, apesar de envolver muito, mas muito mais dinheiro, foi tomada em instantes; a ajuda à Grécia está consumindo meses que só fazem aumentar o sofrimento de toda a sociedade.
Sei bem que os ideólogos do pensamento único dirão que deixar quebrar bancos causa problemas sérios que vão muito além dos banqueiros e dos acionistas. É verdade. Mas deixar quebrar um país, qualquer que ele seja, não é infinitamente mais grave?
Fonte: Clóvis Rossi - Folha Online



março 29th, 2010 at 8:33 pm
Não seria melhor ao invés de colocar apenas um “curativo na ferida” adaptar os “habitos” do capitalismo ‘moderno’ para não cair mais? Mudar o sistema seria algo muito radical e sem necessidade,porém, evoluir é preciso e conformismo atrapalha nossa evolução.